Vestígios da Terra (2025)
Curadoria Marianne Farah Arnone
Casa de Metal Espaço Cultural – São Paulo
2025
O projeto Ocupa Container, da Casa de Metal, apresenta o trabalho da artista Rosane Dias. Desde 2016, ela investiga o agregado siderúrgico — um resíduo da produção de aço bastante comum em Ipatinga (MG), cidade onde vive. Esse material, desafiador do ponto de vista ambiental, revela um grande potencial criativo. A partir dessa investigação, a artista desenvolve técnicas e usos inovadores para o material: produz suas próprias tintas, cria a base de suas pinturas e dá forma a objetos tridimensionais.
Percebemos dois grandes eixos de interesse em sua produção. Um deles é a vida vegetal, plantas e formas orgânicas, tratadas em suas pinturas com vivacidade cromática. O outro são as peças tridimensionais: fragmentos de objetos que remetem a vestígios escavados de outras eras, semelhantes a cerâmicas antigas, tratados pela artista como uma espécie de achado arqueológico.
O solo, esse organismo vivo de formação mineral e orgânica, parece constituir um elo fundamental entre essas produções aparentemente tão díspares, sem uma conexão imediata.
No solo fértil nascem as plantas, que fixam raízes profundas na terra e dela retiram nutrientes, energia e vitalidade. O solo é o esteio da vida vegetal que, por sua vez, também o alimenta e contribui para sua preservação. A matéria orgânica proveniente dos vegetais deposita-se e integra-se ao solo, servindo de nutriente que, aliado a outros fatores e à ação do tempo, atua na manutenção e renovação desse organismo — um longo, incessante e complexo ciclo.
Mas o solo abriga também outros registros do tempo. Escavando a fundo, podemos descobrir vestígios materiais pertencentes a diferentes culturas. Esses artefatos revelam o modo como essas culturas produziam seus objetos e se relacionavam com o meio em que viviam, apontando para seus processos de apropriação e transformação da natureza. No caso dos simulacros arqueológicos produzidos por Rosane, se olharmos de perto, perceberemos que os moldes utilizados derivam, na verdade, de utensílios plásticos descartáveis. Assim, a artista nos convida a refletir sobre o legado material de nossa sociedade e sua relação com o meio ambiente, o consumo e o tempo.
Sob o solo encontram-se ainda os minerais, elementos estruturantes da crosta terrestre. É deles que se extraem os minérios utilizados na produção de metais, como o aço. O processo industrial do aço gera um resíduo conhecido como agregado siderúrgico — um material de aspecto pedregoso, áspero e granular, que carrega a memória de sua matriz mineral.
O agregado siderúrgico é a matéria-prima utilizada por Rosane Dias na produção de suas pinturas e objetos tridimensionais. Suas obras exploram texturas e formas que mantêm, em sua materialidade, vestígios de uma origem mineral. Mais do que propor um novo destino ao resíduo industrial, a artista nos convida a refletir sobre o presente e sobre os desafios da convivência entre indústria e natureza, memória e transformação.
