Artes Visuais no Vale do Aço – Continuidade (2023)
Curadoria Eduardo de Jesus
Museu Mineiro
2023
Rosane Dias reflete sobre a cidade buscando uma reflexão estética e histórica pouco comum, nos remetendo a períodos pré-históricos em uma fabulação radical. Nas instalações “Poética das Pedras” (2020-2022) e “Segredos do Subsolo” (2016-2022), Rosane sugere uma espécie de aproximação com os antigos gabinetes de curiosidades e laboratórios de arqueologia. O clima nos remete, entre outras referências, ao gabinete do professor Lidenbrock, de “Viagem ao centro da terra” de Jules Verne. O personagem do clássico da literatura reúne qualquer vestígio das civilizações do passado, como o velho pergaminho que ao ser decifrado (para o azar de seu jovem assistente Axel) o permite chegar o ao centro da Terra. Rosane nos coloca em uma dinâmica parecida. A mesa que vemos em “Segredos do Subsolo” nos solicita gesto semelhante. Precisamos decifrar já que vemos objetos que em um primeiro olhar nos remetem a fósseis, vestígios de outras civilizações, preciosos vestígios arqueológicos.
O modo serializado, organizado e quase categorizado no qual estão exibidas as peças, assim como as repetições, as peças rompidas e os cacos com fragmentos bem pequenos que, ainda assim, estão exibidos parece garantir a eles relevância e destaque. No entanto, ao nos determos mais nosso olhar nas peças, logo depois dessa primeira impressão, percebemos que são réplicas de ordinários pratos plásticos, pequenos potes descartáveis de produtos industrializados como iogurtes, entre outros, que são modelados. A instalação é composta por artefatos e fragmentos de objetos de agregado siderúrgico e rejeito da barragem modelados tomando objetos cotidianos de pouco valor. A obra é profícua em sua multiplicidade de sentidos que passam pelo modo como lidamos com o que descartamos, o que permanece no subsolo, o resíduo ressignificado e a invenção das memórias. O mesmo gesto organiza “Poética das Pedras” e mais uma vez vemos bancadas com as pedras organizadas de forma esmerada por tamanho, cores e formatos que elaboram um suntuoso conjunto de fragmentos delicados que nos lembram flores, corações ou borboletas. Delicada e divertida, a refinada poética das pedras de Rosane nos convoca a refletir sobre as potências das passagens entre natureza e cultura.
